O "Escola Sem Partido"
O
“Escola Sem Partido”: as bases legais e a finalidade pedagógica
da escola
por
Lukas T. Cardoso
Qual
a base legal, juridicamente,
das propostas do movimento Escola Sem Partido. Na ótica pedagógica
quais os reflexos do projeto para o ambiente escolar? O Instituto
Lukas Cardoso analisa os pontos mais polêmicos do Escola Sem
Partido.
Podemos
analisar o projeto Escola Sem Partido de acordo com três pontos de
vista distintos: o político, o jurídico e o pedagógico. Antes de
adentrarmos nos meandres do Escola Sem Partido é necessário nos
debruçarmos na explanação, propriamente dita, do tema. Só a
partir daí podemos abordar os temas legais e educacional.
É evidente que o
movimento Escola Sem Partido, liderado pelo advogado Miguel Nagib
e capitaneado por políticos da direita conservadora que tem se
fortalecido no Brasil nos últimos anos, tem como propósitos claros
a vigília constante de professores, que segundo os protagonistas do
projeto são “doutrinadores” de um projeto “marxista cultural”.
Porém, é necessário esclarecermos aos leitores que o diálogo
pedagógico hodierno contempla uma gama enorme de tendências
pedagógicas e metodologias didáticas, que se opõem e se
complementam enquanto auxiliam os educadores em seus dilemas
pedagógicos.
Segundo Miguel
Nagib, em relato ao canal de
YouTube de Nando Moura, o
movimento Escola Sem Partido, que no restante da América Latina
possui outras bandeiras, teve
origem em um problema ocorrido com seu filho, em uma escola
particular em São Paulo, onde, conta
Miguel Nagib, um professor teria comparado Che Guevara a São
Francisco de Assis. Para o advogado, uma
comparação como essa é uma clara “doutrinação ideológica”,
prática comum nas escolas e universidades, devido a esquerda ter
dominado esses espaços.
Os objetivos
políticos do projeto Escola Sem Partido, foram definidos por Miguel
Nagib em uma entrevista ao jornal “El País”: “[…] a
descontaminação e demonopolização política e ideológica das
escolas […] o respeito à integridade intelectual e moral dos
estudantes” e por fim, “[…] o respeito ao direito dos pais de
dar aos seus filhos a educação moral que esteja de acordo com suas
próprias convicções.”. Para
conseguir realizar as propostas pretendidas pelo Escola Sem Partido o
advogado propõe ações na esfera judicial e, por vezes, política,
ao invés do diálogo pedagógico.
Mas
o que é possível “garantir” dentro das legislações?
Sem sombra de
dúvidas o Escola Sem Partido é inconstitucional, como foi há pouco
afirmado em processo para suspensão do mesmo no estado do Alagoas
pelo ministro do STF, Barroso. O
projeto de lei do Escola Sem Partido, e suas cópias malfadadas em
diversos municípios e estados, é tão vazio em si mesmo, que pode
se tornar o monstro que diz combater. Um projeto como esse, segundo a
liminar expedida por Barroso o Escola Sem Partido pode acabar
promovendo uma educação de um partido único, “doutrinando” à
la direita. Tal projeto, ainda segundo Barroso, pode impor nas
escolas brasileiras uma perseguição aos professores que divergirem
da visão ideológica dos autores do projeto.
Sendo
dessa forma, por si só poderíamos encerrar aqui o assunto da
legalidade (ou ilegalidade) do projeto, porém, dada a
proporcionalidade que a temática tomou ao longo dos anos, é muito
mais preocupante e sombrio o risco da aprovação, a merce da
constitucionalidade, do projeto que assombra professores nos seus
cotidianos escolares. Um projeto de lei que busca objetivar uma
pseudo neutralidade na educação permite, e chega a militar por
isso, que um discurso dominante tome conta das salas de aula.
Corremos o risco de sermos denunciados, processados e perseguidos
ainda que nos limitemos a “rezar a cartilha” que nos for
entregue.
Na
página oficial do movimento Escola Sem Partido encontramos
orientações sobre como proceder com os professores “doutrinadores”
que diretamente, ou por omissão, assim como as escolas, permitam o
“uso cativo do tempo da aula para doutrinar os alunos”. Sendo,
dessa feita, inconstitucional e mesmo ilegal os objetivos do projeto
de lei, pois o mesmo fere princípios basilares de nossa Constituição
Federal de 1988. Será que presenciaremos o direito a liberdade de
cátedra ser engolido pelo monstro da moralidade?
Nos impressiona
que para muito além de se preocupar com a educação, o Escola Sem
Partido visa a própria censura de educadores Brasil a dentro. A
CF88, em seu artigo 5º preconiza o contrário a tal objetivo, posto
que os constituintes se preocuparam largamente em defender a
liberdade de expressão, o que ainda é garantido na educação para
o exercício plural da docência. É válido nesse momento ressaltar
que o artigo 5º da CF88 é um direito fundamental, não podendo ser
negado a quem quer que seja. Em
capítulo específico à educação no artigo 206, os constituintes
esclarecem as formas como serão oferecidos e realizados o magistério
(dá-se assim a fundamental importância de se conhecer as
legislações que garantem o exercício do magistério).
Destarte, em
legislação alguma observamos espaço para que o projeto do Escola
Sem Partido se firme, na legalidade. O ambiente escolar, preconizado
na constituição, é um ambiente plural e livre, que afasta a
censura e a necessidade de vigília. Assim, é jocoso que sujeitos
que desconhecem a realidade educacional brasileira, que desconhecem o
chão onde pisam a maior parte dos professores e que se negam ao
debate legítimo dos fóruns educacionais, decidam acima dos
verdadeiros conhecedores da matéria, de forma imperiosa. Censores
desconhecedores da educação coibindo especialistas da área, que
deveriam ser consultados e não vigiados.
Vale ressaltar que
a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 é toda
baseada na CF88, e vem com o intuito de legitimar o que já
destacamos.
Frente a toda gama
de leis basilares do magistério e da educação escolar, é
indubitável que o projeto de lei do Escola Sem Partido é
inconstitucional e ilegal.
Um
passo a frente e não estaremos mais no mesmo lugar: e os fatores
pedagógicos?
Quando observamos
os princípios pedagógicos do movimento Escola Sem Partido nos
deparamos com atrocidades ainda maiores que os erros crassos dentro
da (i)legalidade
do projeto. O Escola Sem
Partido, incrivelmente, toma como pilar os fundamentos de uma
educação tecnicista, que preza mais pela
formação técnica, para o mercado e de acordo com as cartilhas, do
que por uma educação humana, crítica e cidadã.
O que notamos, no
ponto de vista pedagógico, é que os defensores do Escola Sem
Partido negam os desenvolvimentos teóricos dos últimos 100 anos ou
mais, posto que negam desde Freud, até mesmo Piaget e Vygotsky,
sendo esses os teóricos mais utilizados no campo educacional. Porém,
é válido ressaltar que Paulo Freire, nosso patrono da educação
brasileira, é o teórico mais atacado pelo movimento Escola Sem
Partido. A visão de construção coletiva da aprendizagem,
valorizando o cotidiano escolar e social do aluno, desenvolvendo o
pensamento sócio crítico,
desde a primeira infância até
o ensino superior, é tido como “doutrinação”. Os defensores do
Escola Sem Partido usam Paulo Freire, e sua pedagogia, como o bode
expiatório dos graves problemas da educação brasileira,
desconsidera-se as estruturas prediais das escolas, os baixo salários
dos professores, a falta de material educacional e, até mesmo, a
fome e a desestabilidade afetiva e social dos alunos.
Freire é o autor
brasileiro mais citado pelas universidades pelo mundo. A pedagogia
freireana é cheia de complexos processos didáticos pedagógicos, um
artigo todo sobre a pedagogia freireana seria incapaz de abordar toda
sua complexidade e riqueza teórica, mas cabe a este artigo analisar
o Escola Sem Partido. Dito isso, não podemos deixar de trazer a luz
a compreensão do processo de ensino-aprendizagem contida em Paulo
Freire, toda sua obra se baseia na prática de décadas como
alfabetizador e autor de dezenas de livros sobre o processo
educacional.
Limitemo-nos aqui
a tratar o movimento Escola Sem Partido, e apontar as maiores gafes
teóricas dos teóricos desse movimento. É
fato que o positivismo à la brasileira, busca de toda forma uma
neutralidade na esfera educacional, tentando de todas as maneiras
condenar a escola brasileira e a academia a uma neutralidade
inexistente e impossível, claro que não defendemos que a escola
seja partidarizada, mas que o senso crítico seja trabalhado em sala
de aula, até para que possamos visionar melhores eleitores e,
sobretudo, melhores cidadãos para nosso país.
É óbvio, e
extremamente analisado por pesquisas científicas, que não há
neutralidade nas ciências humanas, posto que todo ato humano é
antes um ato político. Seria meramente uma leitura mecanizada de
cartilhas pré-produzidas (e já com um viés ideológico) uma aula
de história que trate das relações humanas, algo impossível de se
conceber é uma aula de história, sociologia, filosofia, ou mesmo de
literatura, que pressuponha neutralidade do professor.
Por
fim, é fundamental indagar qual é a escola que não se constrói
das diferenças nela existentes? É na diversidade de alunos,
professores e demais educadores da escola que a educação se faz. É
o espaço escolar um espaço cheio de convicções ideológicas e
éticas, um espaço crivado de pessoas, com histórias, com
sentimentos e vendo o mundo de óticas diversas. Impor o Escola Sem
Partido em uma sala de aula é impor o silenciamento do conhecimento,
de professores, alunos, e mesmo, impor o silêncio dos que
utilizam-se da escola como o único lugar onde podem denunciar abusos
e dores que a própria família, por vezes, os impõem. A escola é
local de diálogo, não de imposições. O professor é antes um
provocador do que um professador, pronto a dizer verdades a serem
cegamente seguidas. A sala de aula é espaço de construção
coletiva e diária, de troca e não de “depósitos” de
informações. Negar isso, é recusar-se a conhecer o chão pisado
por professores e alunos, é acreditar que existe saber mais e saber
menos, o saber mais de professores técnicos e o saber menos de
alunos, páginas em branco.
Pedagogicamente, tudo que foi
dito até aqui são consensos no ambiente acadêmico teórico da
educação.
Destarte, o
movimento Escola Sem Partido é na verdade o movimento da escola com
partido único, construído sobre uma égide política ideológica de
uma parcela da população que acredita que deva ser o mercado o
grande ditador dos métodos escolares. Não podemos seguir em um
caminho que leva a educação para os anos 1970, onde imperava a
educação tecnicista. É preciso gritar. O Escola Sem Partido deve
ser combatido, enfrentado. Professores das públicas e privadas devem
se unir para a luta contra os manipuladores da opinião pública.
Temos nesse momento uma batalha
inglória, nos debruçar frente a ataques a liberdade de cátedra
quando temos tantas escolas sem quadros, sem paredes, sem
profissionais e sem salários.

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