Dom Quixote no Divã

     
      A obra clássica de Miguel Cervantes, é um clássico que, após a Bíblia Sagrada, é o livro mais lido ao longo dos seus 4 séculos de história. Mas essa obra não apenas uma bela obra de literatura que possui, apesar da dificuldade da leitura, uma beleza literária, cheia de metáforas, sonhos e encantamentos.
   Cheio de personagens únicos, que possuem as características mais próprias e cheias de falhas e percalços humanos, que, mesmo em face a um livro de cavalaria, mostra um herói velho, fraco, montado em um cavalo magro. Um fiel escudeiro gordo, maluco, pobre, montado em um burro. Uma donzela feia e cheirando a porcos. Um livro que traz a beleza dos sonhos e utopias, mesmo em frente a total humanidade dos personagens.
     A obra mostra-nos a história do velho senhor rural, ingênuo e cheio de sonhos, que em sua velhice tem em seu hobby favorito a leitura dos livros de cavalaria (típicos da época em que fora escrito). Na loucura de alcançar os sonhos lidos e “vividos” por Dom Quixote, o senhor acredita piamente na literalidade das aventuras escritas, decidindo ele próprio se tornar um cavaleiro andante. Suas histórias, que sucedem sua decisão de na madrugada desaparecer pelos caminhos do que sonhava, sua alucinação leva o personagem a enfrentar tantos desafios que fogem a realidade física e exacerbam o limite dos sonhos. Em meio a suas experiências podemos ver moinhos de vento tornarem-se gigantes, ladrões tornarem-se escravos e cortesãs virarem donzelas. Tudo se passa no anseio de Quixote em combater as injustiças, buscando, por meio de sua nobreza, juntamento com a de Sancho Pançaa, combater o mal em nome das virtudes cristãs da época do Concílio de Trinto.

     Mas o que Dom Quixote tem a nos dizer se o olhamos à luz do divã?

     Dom Quixote nos mostra que vivemos em meio a crise dos sonhos, em uma geração de pessoas líquidas, como nos fala Bauman, mas esse “herói” tem a nos mostrar que toda sua loucura é relativa, e apesar de parecer a nós ingênuo os sonhos de Quixote, muito além disso é o que nos faz vibrar.
     Segundo Janice Theodoro o livro é uma representação exata sobre a nossa realidade, não a líquida apontada por Bauman, mas a utópica a qual buscamos e precisamos para sobreviver, uma realidade que se transforma paralelamente em sonhos e sonhos, que por sua vez, insistem em se tornarem reais.
     Em Quixote temos a construção da utopia em defesa do ser humano justo e da consciência limpa e clara de cada um de nós para o bem, assim como Rousseau nos traz: o homem nasce bom; e em Cervantes homens comuns, gordos, velhos e pobres fazendo o bem comum.
     Novamente segundo a professora Theodoro, no programa Café Filosófico, “Quixote não via o moinho de vento como moinho de vento, pois, como diz Sancho Pança ele tinha outro moinho de vento na cabeça”, afirmou. “Quando acreditamos na propaganda para emagrecer dormindo, fazemos igual. Só embarcamos no sonho se ele repercutir em nós.”
     Dom Quixote nos traz a tona a loucura nossa de cada dia, loucura essa que deixa claro o homem que enxerga além de seu próprio ego o outro, esse enxergar mostra nossa loucura e fraqueza. Se falamos tudo aquilo que acreditamos e que vemos, se observamos além de nossos egos, seremos considerados loucos, como Quixote. Precisamos aprender a ser cautelosos em um século com tantas acusações e com a “morte” dos sonhos.
     Em meio a uma sociedade hierárquica, ainda cheia de traços medievais e católicos, Sancho nos mostra que vale tanto apena rir de si mesmo e de “nosso amo”, rir de si mesmo e de quem temos lealdade nos permite o avanço dos sonhos, baixando nosso ego e narcisismo. Em uma sociedade ainda distante da igualdade, os personagens de Cervantes não nos mostram uma hierarquia social, mas são humanizados e nos ensinam a rir, mesmo quando caímos. Sonhar ainda que em meio a quedas e derrotas frente a “gigantes de vento”.
     É maravilhoso encontrarmos em uma sociedade de crises, em uma geração que se exime a responsabilidades, uma história marcada por homens e mulheres que não demonstram medo em assumirem seus erros e fazem isso com a firmeza e a dor de quem sabe que errou, mas que acreditam que podem continuar a sonhar, consertando os próprios erros e seguindo adiante.
     Infelizmente temos visto que hoje os jovens, e mesmo as crianças, não embarcam mais em meios aos sonhos e utopias. “A sociedade deu uma dimensão maior para o presente. É o imperativo mais desafiante. O sonho diminuiu a dimensão temporal das projeções. Antes acreditávamos em utopia.” (THEODORO, Janice, 2017) Bauman nos fala que tudo tem se esvaído mediante a crise dos sonhos, temos deixado de acreditar em nossas utopias e, pior, temos negligenciado a viver nossas vidas com propósitos, apenas existindo.
     Mas mesmo frente a tudo… Sonhos sobrevivem. É claro que nossas utopias tem se construído em assuntos tanto mais genéricos que os de Quixote, que lutava por justiça e pelo amor, hoje lutamos pelos animais e pelo planeta. Nietzche anunciou no final do século XIX que Deus estava morto, sentenciando que o homem havia matado Deus com a faca cega da ganância, mas não podemos deixar que as causas nobres se percam, é preciso ainda termos o velho apelo por um mundo melhor apregoado pela moral cristã dos séculos XVI e XVII.
     Hoje os valores são líquidos e sobrevivem os que nos deixam por cima, Quixote nos mostrou que o seu trunfo não era vencer os inimigos, mas lutar por justiça e amor, por seus sonhos e ideais.
     Por fim, Quixote nos deixa um legado o de viver de acordo com as virtudes que acreditamos, nos deixando como primícia aconselhar bem aos que fazem o mal. A loucura do quixote é a loucura relativa. se eu não souber o que é correto, eu não sei como caminhar. quixote parte da ideia de que se deus é bom, e que se ele nos deu o mundo, podemos fazer do mundo um bom lugar.” (THEODORO, Janice, 2017).
     Quixote nos faz, em toda sua grandeza, perceber que é inadmissível não enxergarmos o outro, não podemos seguir o fluxo dos tempos, é preciso que rompamos a incabível prisão. Cervantes nos faz enxergar de novo, que precisamos vencer tantas e tantas guerras para chegarmos a paz que almejamos. Quixote nos faz rever os valores dilacerados na sociedade pós-moderna.
     Quixote morre, não quando para de respirar, mas quando cessam seus sonhos.

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