Dom Quixote no Divã
Cheio
de personagens únicos, que possuem as características mais próprias
e cheias de falhas e percalços humanos, que, mesmo em face a um
livro de cavalaria, mostra um herói velho, fraco, montado em um
cavalo magro. Um fiel escudeiro gordo, maluco, pobre, montado em um
burro. Uma donzela feia e cheirando a porcos. Um livro que traz a
beleza dos sonhos e utopias, mesmo em frente a total humanidade dos
personagens.
A
obra mostra-nos a história do velho senhor rural, ingênuo e cheio
de sonhos, que em sua velhice tem em seu hobby favorito a leitura dos
livros de cavalaria (típicos da época em que fora escrito). Na
loucura de alcançar os sonhos lidos e “vividos” por Dom Quixote,
o senhor acredita piamente na literalidade das aventuras escritas,
decidindo ele próprio se tornar um cavaleiro andante. Suas
histórias, que sucedem sua decisão de na madrugada desaparecer
pelos caminhos do que sonhava, sua alucinação leva o personagem a
enfrentar tantos desafios que fogem a realidade física e exacerbam o
limite dos sonhos. Em meio a suas experiências podemos ver moinhos
de vento tornarem-se gigantes, ladrões tornarem-se escravos e
cortesãs virarem donzelas. Tudo se passa no anseio de Quixote em
combater as injustiças, buscando, por meio de sua nobreza,
juntamento com a de Sancho Pançaa, combater o mal em nome das
virtudes cristãs da época do Concílio de Trinto.
Mas
o que Dom Quixote tem a nos dizer se o olhamos à luz do divã?
Dom
Quixote nos mostra que vivemos em meio a crise dos sonhos, em uma
geração de pessoas líquidas, como nos fala Bauman, mas esse
“herói” tem a nos mostrar que toda sua loucura é relativa, e
apesar de parecer a nós ingênuo os sonhos de Quixote, muito além
disso é o que nos faz vibrar.
Segundo
Janice Theodoro o livro é uma representação exata sobre a nossa
realidade, não a líquida apontada por Bauman, mas a utópica a qual
buscamos e precisamos para sobreviver, uma realidade que se
transforma paralelamente em sonhos e sonhos, que por sua vez,
insistem em se tornarem reais.
Em
Quixote temos a construção da utopia em defesa do ser humano justo
e da consciência limpa e clara de cada um de nós para o bem, assim
como Rousseau nos traz: o homem nasce bom; e em Cervantes homens
comuns, gordos, velhos e pobres fazendo o bem comum.
Novamente
segundo a professora Theodoro, no programa Café Filosófico,
“Quixote não via o moinho de vento como moinho de vento, pois,
como diz Sancho Pança ele tinha outro moinho de vento na cabeça”,
afirmou. “Quando acreditamos na propaganda para emagrecer dormindo,
fazemos igual. Só embarcamos no sonho se ele repercutir em nós.”
Dom
Quixote nos traz a tona a loucura nossa de cada dia, loucura essa que
deixa claro o homem que enxerga além de seu próprio ego o outro,
esse enxergar mostra nossa loucura e fraqueza. Se falamos tudo aquilo
que acreditamos e que vemos, se observamos além de nossos egos,
seremos considerados loucos, como Quixote. Precisamos aprender a ser
cautelosos em um século com tantas acusações e com a “morte”
dos sonhos.
Em
meio a uma sociedade hierárquica, ainda cheia de traços medievais e
católicos, Sancho nos mostra que vale tanto apena rir de si mesmo e
de “nosso amo”, rir de si mesmo e de quem temos lealdade nos
permite o avanço dos sonhos, baixando nosso ego e narcisismo. Em uma
sociedade ainda distante da igualdade, os personagens de Cervantes
não nos mostram uma hierarquia social, mas são humanizados e nos
ensinam a rir, mesmo quando caímos. Sonhar ainda que em meio a
quedas e derrotas frente a “gigantes de vento”.
É
maravilhoso encontrarmos em uma sociedade de crises, em uma geração
que se exime a responsabilidades, uma história marcada por homens e
mulheres que não demonstram medo em assumirem seus erros e fazem
isso com a firmeza e a dor de quem sabe que errou, mas que acreditam
que podem continuar a sonhar, consertando os próprios erros e
seguindo adiante.
Infelizmente
temos visto que hoje os jovens, e mesmo as crianças, não embarcam
mais em meios aos sonhos e utopias. “A sociedade deu uma dimensão
maior para o presente. É o imperativo mais desafiante. O sonho
diminuiu a dimensão temporal das projeções. Antes acreditávamos
em utopia.” (THEODORO, Janice, 2017) Bauman nos fala que tudo tem
se esvaído mediante a crise dos sonhos, temos deixado de acreditar
em nossas utopias e, pior, temos negligenciado a viver nossas vidas
com propósitos, apenas existindo.
Mas
mesmo frente a tudo… Sonhos sobrevivem. É claro que nossas utopias
tem se construído em assuntos tanto mais genéricos que os de
Quixote, que lutava por justiça e pelo amor, hoje lutamos pelos
animais e pelo planeta. Nietzche anunciou no final do século XIX que
Deus estava morto, sentenciando que o homem havia matado Deus com a
faca cega da ganância, mas não podemos deixar que as causas nobres
se percam, é preciso ainda termos o velho apelo por um mundo melhor
apregoado pela moral cristã dos séculos XVI e XVII.
Hoje
os valores são líquidos e sobrevivem os que nos deixam por cima,
Quixote nos mostrou que o seu trunfo não era vencer os inimigos, mas
lutar por justiça e amor, por seus sonhos e ideais.
Por
fim, Quixote nos deixa um legado o de viver de acordo com as virtudes
que acreditamos, nos deixando como primícia aconselhar bem aos que
fazem o mal. “A
loucura do quixote é a loucura relativa. se eu não souber o que é
correto, eu não sei como caminhar. quixote parte da ideia de que se
deus é bom, e que se ele nos deu o mundo, podemos fazer do mundo um
bom lugar.” (THEODORO,
Janice, 2017).
Quixote
nos faz, em toda sua grandeza, perceber que é inadmissível não
enxergarmos o outro, não podemos seguir o fluxo dos tempos, é
preciso que rompamos a incabível prisão. Cervantes nos faz enxergar
de novo, que precisamos vencer tantas e tantas guerras para chegarmos
a paz que almejamos. Quixote nos faz rever os valores dilacerados na
sociedade pós-moderna.
Quixote
morre, não quando para de respirar, mas quando cessam seus sonhos.

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